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Engorda de vitelos Holstein Frísia

A engorda de vitelos da Raça Holstein Frísia tem sido uma opção interessante devido ao preço de aquisição do vitelo, à performance destes animais até aos 8 meses de idade e ao preço por kg de carcaça pago ao Produtor.
Iremos descrever alguns aspetos interessantes relativos ao programa alimentar destes animais. No entanto, será conveniente dividir a engorda em duas fases: a) do nascimento ao desmame; b) do desmame até aos 8 meses de idade.

 

PRIMEIRA FASE – Do nascimento ao desmame

O principal objetivo é que os animais, na altura do desmame, tenham o dobro do peso à nascença, ou seja, 90 kg de peso vivo às 8 semanas (Ganho Médio Diário> 800g). Nesta fase, o vitelo passa de monogástrico a ruminante e deve-se preparar a fase pós desmame. Espera-se um consumo de alimento concentrado – Starter – de 2 kg às 8 semanas.
Relativamente à fisiologia, o vitelo à nascença é monogástrico e o abomaso tem uma capacidade de 2-3 litros, que condiciona o consumo de leite. O rúmen desenvolve-se rapidamente, pois começa a produzir AGV (ácidos Gordos Voláteis) 10 a 15 dias após o nascimento. No entanto, o forte desenvolvimento do rúmen ocorre entre as 4 e as 8 semanas de vida do vitelo (figura 1).

 

Figura 1. Desenvolvimento dos compartimentos do estomago dos bovinos da nascença à fase adulta.

 

Tabela 1. Programa de aleitamento de vitelos para 2 refeições por dia.

 

A alimentação dos vitelos nesta fase é composta por produtos lácteos, água, concentrado e fibra. Nas primeiras semanas de vida, o leite ou o alimento lácteo é a principal fonte de energia e proteínas para o vitelo. Devido à fisiologia dos animais, nesta fase deve-se respeitar o programa de aleitamento. Na tabela 1, um exemplo de um programa de aleitamento considerando o fornecimento em duas refeições por dia.
Deve-se colocar água à disposição do vitelo, a partir do 4º dia de vida, pois é indispensável para a hidratação, participa no bom funcionamento do rúmen e favorece o consumo de alimento concentrado e fibra. Como podemos ver na figura 2, os animais que tiveram água à disposição, obtiveram um ganho de peso superior às 4 semanas, consequentemente, ingeriram mais quantidade de Starter e houve menor ocorrência de diarreias, quando comparado com animais sem acesso a água.

 

Figura 2. Estudo sobre as vantagens sobre o acesso à água dos vitelos.

 

No que concerne ao alimento concentrado, este é indispensável ao bom estabelecimento do ecossistema ruminal e desenvolvimento das papilas. Em termos práticos, deve-se colocar à disposição do vitelo desde os primeiros dias de vida, 2 vezes por dia para estimular a ingestão. O nosso objetivo é que o consumo seja, aproximadamente, 150 g/dia às 3 semanas.

 

Figura 3. Alimentação e desenvolvimento do rúmen.

 

O alimento sólido dará origem à produção de AGV (essencialmente C3 e C4, ou seja, ácido propiónico e ácido butírico) para o desenvolvimento e funcionamento ótimo das papilas e, ainda, é indispensável para cobrir as necessidades energéticas e proteicas do vitelo após o desmame. Como foi descrito anteriormente, das 4 às 8 semanas, ocorre um forte desenvolvimento do volume do rúmen pela capacidade de ingestão que necessita do aporte de fibras grosseiras (palha ou feno) e desenvolvimento acentuado das papilas pela capacidade de absorção que necessita do aporte de concentrado rico em glúcidos fermentescíveis e água (figura 4).

 

Figura 4. Desenvolvimento das papilas do rúmen.

Figura 5. Evolução da quantidade de alimento concentrado ingerido.

Figura 6. Quantidade de concentrado ingerido e crescimento após desmame.

SEGUNDA FASE – Dos 2 aos 8 meses

De seguida, iremos apresentar um arraçoamento possível adequado para vitelos da Raça Holstein, desde o desmame (2 meses de idade) até aos 8 meses com GMD (Ganho Médio Diário) de 1450 g, ou seja, dos 90 kg aos 350 kg de peso vivo. No que diz respeito à forragem, consideramos a palha e o alimento concentrado foi desenhado em função da forragem disponível, da raça e da idade dos animais.
Em relação aos preços da forragem e matérias-primas, consideramos valores atuais de mercado. De acordo com o nosso caderno de encargos, para o objetivo de produção definido, fizemos o arraçoamento (tabela 2) respeitando as recomendações da fase de engorda (que variam, como é possível observar pela figura 7).

 

Tabela 2. Arraçoamento para vitelos da raça Hoslstein dos 2 aos 8 Meses.

 

Figura 7. Ganho de peso dois tecidos em função do peso vivo.
Fonte: Adaptado de Robetin, 1986

Numa primeira fase, podemos afirmar que é interessante, do ponto de vista económico, uma engorda nesta fase para esta raça, pois o custo alimentar por kg de crescimento é 1,18 €.

No que concerne à energia, tabela 3, o arraçoamento apresenta um nível energético elevado para compensar o nível de ingestão reduzida.

 

Tabela 3. Balanço energético do arraçoamento.

 

Relativamente à proteína (tabela 4), é fundamental nesta fase um nível elevado e que a proteína seja de qualidade e equilibrada em termos de aminoácidos e de degradabilidade (DT). A proteína bruta (PB) representa a matéria azotada total, enquanto a DT representa a proporção de matéria azotada total degradada no rúmen que contribuirá para a proteossíntese microbiana depois da degradação em amoníaco. A produção de proteínas microbianas no rúmen (PDIM) poderá ser limitada pela energia fermentescível (PDIME) ou pela proteína degradável (PDIMN).

 

Tabela 4. Balanço proteico do arraçoamento.

 

No que diz respeito ao balanço de fibrosidade (tabela 5), o arraçoamento apresenta valores bastante aceitáveis de forma a não causar problemas digestivos.

 

Tabela 5. Balanço de fibrosidade do arraçoamento.

 

Através da observação da tabela 6, podemos verificar a eficácia técnica do arraçoamento. Tendo em conta o consumo médio, este arraçoamento permite produzir, pelo menos, 1450 g diárias de crescimento.

 

Tabela 6. Eficácia técnica do arraçoamento.

 

Através da observação da tabela 7, podemos concluir que o arraçoamento de 90 kg a 350 kg de peso vivo apresenta um custo alimentar médio de 1,71 €/animal/dia (310 € por vitelo em 6 meses de engorda).

 

Tabela 7. Balanço económico.

Conclusão

Este tipo de engorda parece ser, do ponto de vista técnico-económico, interessante. Esta afirmação baseia-se no preço de aquisição deste tipo de vitelo, muito inferior quando comparado com animais de raças de carne, e da relação custo/beneficio durante a engorda nesta fase. Esta é a fase em que existe um melhor potencial económico no crescimento, pois os GMD são aceitáveis e o consumo ainda não é exageradamente elevado. O único aspeto negativo será a preparação para a fase pós desmame que é uma fase sensível e, por isso, necessita de maior atenção.

TEXTO: Pedro Castelo, Engenheiro Zootécnico

 

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